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Arquivo da categoria: Reflections

12 de Janeiro, para não dizer que eu não falei das coisas…

Haiti 2012


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Definitivamente o mês de janeiro entrou para ficar na história do Haiti. Foi no primeiro dia do mês do ano de 1804 que o país, contra “tudo e todos”, tirou do papel a famosa declaração “francesa” dos direitos dos homens e do cidadão que serviria, sem dúvida, de base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pela Organização das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. São 208 anos de “independência” das correntes da colonização escravagista.

Enquanto os haitianos lembram o seu passado libertador não podemos esquecer que há dois anos o país sofreu um terrível terremoto que matou mais de 300.000 pessoas e, até hoje, deixou todas as marcas possíveis de uma tragédia. Eu me lembro bem, durante o meu retorno ao país no mês de agosto do ano passado: tive a impressão de que tudo havia acontecido “ontem”. Eu daria tudo para que toda esta história de terremoto fosse somente o roteiro de mais um filme de ficção. Mas aconteceu de verdade. As imagens estão ainda vivas e fortes. Na capital, Porto Príncipe, a visão não havia mudado muito em relação às primeiras imagens de desolação divulgadas na noite de 12 de Janeiro de 2010. Até o resto do Palácio Nacional estava lá para nos lembrar deste dia em que “a terra tremeu” e nos fez sentir pequenos. Nas ruas, as pessoas continuam indo e vindo no meio das velhas tendas. Além deste “espetáculo” nada agradável, o que mais me chamou atenção foi a grande e massiva presença de tantas ONG´s, principalmente estrangeiras, algumas com o mesmo nome (só que de países diferentes). Eu não pretendo analisar os fatos, mas prefiro ver um sinal concreto da “onda” de solidariedade que em todo o mundo se ouvia em favor do Haiti logo nas primeiras horas da catástrofe. Esta solidariedade, espontânea, naquela época, não tinha nem cor, nem religião. Ela era humana. Era o grito da humanidade ferida em cada haitiano. Esta solidariedade, aqui no Brasil, teve um sabor particular com a notícia de que a “mãe” da pastoral da criança se solidarizou até as últimas conseqüências com o povo do Haiti. Depois começaram a “chover” as muitas promessas de que a reconstrução era apenas questão de tempo. Não somente a reconstrução do espaço físico, mas espiritual. A própria CNBB se manifestou mandando vários representantes (até confrade da nossa congregação) e, várias vezes, para avaliar e iniciar uma nova linha da missão da Igreja do Brasil. A própria arquidiocese de São Paulo se envolveu diretamente nesta “onda” missionária. Graças a Deus!

POR AMOR A VIDA


Neste dia 12 de janeiro de 2012, dois anos depois dos segundos mais longos na historia do meu país o que percebo é um sentimento de que algo está errado. O que está errado? Quem está errado? O que senti neste momento de um modo geral foi a sensação de certa impotência diante de tantas perguntas sem respostas. Eu não sei bem, mas parece que as interrogações tenham mais espaço do que as afirmações no contexto de hoje. Aliás, digo de passagem, eu não me preocupo muito em “forjar” ou receber qualquer resposta para aliviar esta incerteza. Porém, tenho consciência de que para alguém de fora, mesmo sendo um membro do povo, a visão nunca pode ser considerada absoluta até porque é resultante de uma leitura segunda e indireta. É esta leitura que eu vou tentar partilhar nas seguintes linhas.

VER-JULGAR-AGIR...CELEBRAR

A sensação que eu tenho hoje é que acabou definitivamente o tempo em que ser haitiano era orgulho para a America Latina que lutava contra a escravidão “colonial”. Não só que os povos se espelhavam no exemplo da parte oeste da grande Ilha “Hispanhola”, mas alguns receberam apoio direto do Haiti para o seu próprio processo de formação como nação. A história do povo venezuelano, por exemplo, registra vários momentos desta inspiração e cooperação na luta pela liberdade. Os tempos mudaram, o mundo mudou (e como mudou! E muito mesmo!), as conjunturas não são as mesmas em nenhum lugar do planeta. Assim, de um tempo pra cá (nem sei mais dizer desde quando) ser haitiano vem a representar um peso para o resto do mundo. O Haiti é lembrado como um país que fracassou em tudo e, tem gente que até sustentou a tese, de uma nação precoce que não estava pronta para assumir a liberdade conquistada, como se fosse possível falar da liberdade como algo negociável! Será que tem um tempo para ser livre? Será que o ser humano não nasce livre mesmo? Às vezes, ouvindo falar do Haiti, eu tenho a impressão de que o meu país vem sendo um lugar de experimentação econômica, política e até militar. Não é por acaso que o Brasil recebeu e está comandando a sua primeira grande missão militar da ONU exatamente no Haiti. Alguns amigos aqui no Brasil até brincam com o fato e, certo dia, um deles fez este comentário: “O Brasil nem consegue se comandar e hoje vai comandar outro país; este país deve ser ruim mesmo, né?” Será que o Haiti é aqui mesmo?

Não é, não! Ainda mais hoje, mesmo tendo problemas, favelas e corruptos parecidos com os daqui, não é mais, não. Tem jornalista (repórter espetacular) que ganhou até medalha porque mostrou, não sem exagero, que a coisa mudou faz tempo! Acabou o tempo quando o café haitiano era um dos mais cobiçados ao lado da safra brasileira. O que produzimos hoje quase não dá mais nem para a apreciação local. Falando do Brasil, onde eu vivo desde quase 6 anos por opção missionária e pelo desejo de conhecer a terra do Dom Helder Câmara, eu posso dizer que foi aqui que eu me senti mais haitiano na visão atual do mundo. Desde que cheguei aqui em fevereiro de 2006 eu me deparo a cada ocasião com as mesmas e inevitáveis perguntas. Uma, em particular, sempre me deixou quase sem reação: Quando você vai trazer os seus pais para morar aqui? – Eu não vou trazer eles para morar não porque um dia eu pretendo voltar para servir a minha Igreja, tento responder – não que eu não tenha gostado ou não tenha sido bem recebido. No entanto, sempre tive a certeza de que o Haiti está e estará nas minhas prioridades. Com certeza a minha experiência aqui servirá para fazer de mim um missionário melhor no futuro e para o meu retorno definitivo. Neste sentido eu sou muito grato ao povo brasileiro, como aos demais países onde eu já vivi, estudei e passei na minha caminhada missionária e humana.

Desde que o Brasil passou a comandar a operação militar no Haiti e por ter saído da parte mais aguda da crise econômica mundial quase sem grande susto, ao contrário do que aconteceu com as maiores economias do mundo, a imagem que se vende lá fora é que temos um “novo rico”. Tese que foi se confortando com a ostentação de todo o aparato militar brasileiro nas ruas do Haiti. Para qualquer um desesperado em busca de uma saída qualquer o novo “Tio Sam” mudou de endereço, e ficou também um pouco mais longe (se for comparar com Miami). E como era de esperar a população haitiana no Brasil aumentou consideravelmente e, muitas vezes, do jeito errado. Não é mais novidade para ninguém no Brasil que há mais de 1200 “refugiados” haitianos na cidade acreana de Brasiléia, que na semana passada receberam, do governo federal, a boa notícia de que serão ajudados no processo de regularização e de integração. Mais uma promessa!
Agora uma coisa chamou a minha atenção nesta história toda. Voltando atrás e comparando a minha própria situação de estrangeiro (claro, a minha situação é bem diferente e privilegiada), recordo como foi difícil chegar ao Brasil e receber o visto permanente. Então me pergunto: O que vai acontecer verdadeiramente com os meus irmãos haitianos que estão vivendo em Brasiléia? Agora que eles estão saindo em grupos de 40, onde eles vão? O que eles vão fazer? Como eles vão viver? Até aqui tudo bem, mas outra pergunta me perturba: como conseguiram chegar até o Acre? Quem já morou nesta parte do país sabe como é difícil chegar até lá. Quem facilitou?

HAITI CHÉRIE


Fazendo memória deste segundo “aniversário” do terrível terremoto que mudou para sempre o destino de um povo já sofrido, mas mesmo assim, eu continuo dizendo que é, carinhosamente, o meu “HAITI CHÉRIE”, tenho a sensação de que, com a chegada destes irmãos haitianos no Brasil (e principalmente como eles chegaram) os efeitos do terremoto são ainda em 2012 mais do que dramáticos. Eu temo o pior. Espero que eles não sejam mais um contingente de pessoas que vai aumentar a lista dos desempregados, dos ignorados e dos abandonados pelo sistema. É por isso que as minhas últimas perguntas me preocupam. Elas são muitas e tão urgentes para ficar muito tempo sem respostas. Precisamos apurar os fatos. Precisamos fazer algo. Precisamos saber a verdade dos fatos para ter uma certa tranqüilidade e continuar viver (e até sobreviver)…

R. André Alcinéus, CSSp

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Publicado por em janeiro 12, 2012 em Reflections

 

Uma palavra “política” e “contextualizada”.

Oi minha gente. Uma palavra "diferente" (porque?) (nem eu sei…rsrsrsrs). Confira! Não esqueça também de comentar. Isso é bom para me animar, viu…
 

Uma palavra “política”

 

Até que enfim! Para os amigos que me escreveram para reclamar (rsrsrsrsrs) do fato de eu não ter postado nada nestes dias, venho com uma “palavra” contextualizada e atualíssima. Eu venho deixar uma palavra “política”, “cidadã”, “responsável”, “engajada”, mas também bíblica e cristã. Claro, que não poderia ser diferente. Como cristão que sou, a minha palavra tem que refletir minha vida e minha convicção (minha fé).

Esta palavra de hoje chegou também num contexto de alívio em relação ao meu estatuto de “imigrante”. O dia 10 de setembro de 2010 marcou o fim de um longo processo “normal” de prorrogação e de transformação do meu visto provisório especial para os ministros religiosos (ITEM VII) em permanente. Tudo seria “normal” de verdade se não fossem as várias multas indevidamente recebidas e cumpridas durante este período de quatro anos. Até por isso mesmo eu me sinto bem em partilhar esta palavra “política”.

Do que se trata?

É verdade que o clima pré-eleitoral em que estamos nadando, aqui, no Brasil, influenciou um pouco esta minha palavra de hoje, mas o contexto é bem outro. Desde 1971, o mês de setembro é chamado “mês da Bíblia”. De uma iniciativa local da Arquidiocese de Belo Horizonte, o “mês da Bíblia” passou a ser um grande projeto de evangelização em toda a Igreja do Brasil. Neste ano, o livro escolhido é o de Jonas. O tema “Jonas: conversão e missão” tem como objetivo nos levar a olhar as práticas missionárias de nossas comunidades à luz do livro desse profeta. Por sua vez, o lema “levante-se e vá à grande cidade” (Jn 1, 1) quer nos impulsionar ainda mais rumo a pessoas e lugares sedentos de Deus e carentes de nossa presença missionária.

Em sintonia com toda a Igreja do Brasil, a nossa paróquia de Lourdes proporcionou a semana da Bíblia (13-17 de setembro) em todas as comunidades para estudar e meditar o livro de Jonas. Foi durante o quinto encontro (ontem quinta-feira dia 16) que surgiu esta palavra que, só depois, vem sendo chamada de “política”. O trecho proposto para a reflexão do grupo é a passagem da conversão dos pagãos (Jn 3, 5-10). Eu não vou me alongar com análises e comentários sobre o comportamento do profeta, da sua mensagem e da atitude do próprio Deus diante da conversão dos ninivitas, não, mas quero retomar uma cena que me chamou a atenção e que poderia servir para os dias que estamos prestes a viver aqui, no Brasil, no próximo mês.

O versículo 5 deixou bem claro que foram os ninivitas (o povo) que começaram o processo de mudança e conversão. Eles receberam a mensagem do profeta, acreditaram em Deus e decidiram que cada um faria o esforço necessário. Ninguém mais fica procurando o culpado como aconteceu com os marinheiros (cf. Jn 1, 7), apenas tomaram consciência de que a mudança geral e nas estruturas precisava passar por cada individuo, inclusive pelos que têm responsabilidades maiores. Talvez, seja essa a maior lição do texto, não foi o rei que iniciou o processo de conversão, e sim, o próprio povo. No mesmo contexto, talvez não vá ser também os próximos eleitos que vão mudar o que está errado na política brasileira, e sim o povo. É o povo que precisa começar, até porque é este povo que escolhe os seus eleitos. Por isso eu digo, repetindo a lição dos ninivitas, ousemos (povo) votar diferente em 2010.

 

Que o seu voto seja o início de uma conversão!

 

Pe R. André, CSSp

 
 
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Publicado por em setembro 18, 2010 em Reflections

 

Última Hora… Juntar o útil ao agradável…

Bom dia minha gente…
 
É bom dia mesmo, né! Já percebeu que hora é enquanto estava digitando estas linhas? Não? Que bom então que não.!!
Na verdade, estou aproveitando do fato que as minhas noites de todas as quartas (a partir das 22 horas) são muito agitadas pela tradicional pelada dos padres da Diocese para partilhar uma pequena reflexão que fiz na última terça dia 29 de Junho de 2010. Alias, eu tenho um mal tremendo de encontrar o sono depois de tanto correr atras das bolas mal passadas pelos nossos aprendizes jogadores…rsrsrsrsrsr. Nada da falsa modestia, viu… rsrsrsr. Mas quem já me viu atuar sabe que sou craque mesmo. Só falta o professor Dunga aparecer para a minha primeira convocação com a amarelinha. rsrsrsrs…
 
Todos os bons católicos (rsrsrsrsrs) sabem que o dia 29 de junho marca a solenidade dos Santos Pedro e Paulo, mas a Igreja do Brasil decidiu transferi-la para o domingo mais proximo. Este ano, eu comecei o dia 29 de Junho celebrando as missa das 7 horas no hospital Nossa Senhora das Graças em Governador Valadares. Como pode se esperar as leituras eram do dia e não da solenidade que será celebrada este domingo 4 de Julho de 2010. Como sempre, depois da proclamação do Evangelho, eu dirijo a palavra para a pequena assembléia a fim de alimentar a sua oração. Foi então que comecei a fazer uma ligação entre o Evangelho do dia (a passagem da versão de São Mateus da tempestade acalmada: Mt 8, 23-27) com os Santos da festa do dia. Na verdade, e como sempre quando estou diante deste texto, eu não consegue me policiar para não fazer a seguinte pergunta: Como Jesus consegue ainda dormir no meio deste alvoroço dos discípulos amendontados pelas águas em fúria e os ventos contrários?
 
Com certeza, já ouvimos bastante propostas e respostas convincentes. Mesmo assim eu acho a persistência da pergunta na minha mente é interessante. Para mim, são estes tipos de interrogações que fazem bem ao coração porque mantém uma certa inquietação estimuladora capaz de nos fazer navegar em águas mais profundas da busca. Naquela manhã, eu não tinha dúvida que algo novo iria surgir, pelo menos para mim.
Porque a tempestade acalmada neste dia consagrado aos "fundamentos da Igreja" (segundo as palavras de Bento XVI)? Qual mensagem poderei extrair no contexto da solenidade das "colunas" da fé cristã? O que aprender para hoje? Na hora não tive nenhuma relação. Tentei dizer algo, mas voltei nas mesmas conclusões conhecidas. Mesmo com um certo medo de ter uma celebração muito demorada decidi improvisar e introduzir um momento de preces espontâneas para ver se uma luz pudesse clarear a minha mente. Nada. Aproveitei também para fazer uma prece silenciosa na intenção de um frutuoso resultado e ofereci dignamente, em comunhão com a assembléia, o sacrificio de louvor eucaristico e voltei para a casa paroquial.
 
No caminho do hospital para a comunidade paroquial, dependendo do caminho, eu tenho que passar por cinco semáforos. Naquela manhã, os dois primeiros não foram obstáculos, mas o terceiro me parou. Enquanto estava esperando, voltei a pensar naquele texto do Evangelho e sua relação com as duas figuras dos Santos Pedro e Paulo. Como o sinal demorou um pouco mais por causa da minha posição justamente atrás de dois ônibus, eu tive mais tempo para pensar. De repente piscou na minha memória a cena de um suposto conflito entre Paulo e Pedro relatado na carta aos Gálatas (Cf. Ga 2). Foi então que eu comecei a perceber porque eu estava com tanta certeza de que poderia ter uma relação entre o texto e os Santos do dia.
Independentemente da maneira como interpretamos este texto do capítulo 2 da carta aos Gálatas, uma coisa é certa: estamos diante de dois homens completamente diferentes um do outro, mas complementares. Estamos diante de dois estilos própriamente missionário e pastoral, mas essencial para a caminhada da Igreja. Pedro e Paulo, mesmo tendo recebido de Deus carismas e missões diferentes, são duas figuras interessantíssimas para as gerações de hoje. A convicção inabalável e vigorosa de Paulo precisa do jeitinho pastoral de Pedro para ser acolhida. É preciso ter um "jeito" parecido com o de Jesus quando se fala da missão na Igreja. É preciso ter um certo equilíbrio em tudo. Estou falando da maneira como, muitas vezes, nas nossas famílias, o jeitão forte do pai é adoçado pela ternura da mãe. Os dois são necessários. É preciso, sim, ter voz forte e convicta que mostra a direção, mas ao mesmo tempo é preciso ter o cuidadoso carinho que nos faz sentir de novo criança, capaz de sonhar.
 
Aos gritos confusos dos discípulos dentro da barca Jesus propor a tranquilidade da fé que vence o medo.
Quando as águas da sua vida querem te afogar, porque os ventos de uma religião sem vida; os ventos dos valores de uma sociedade sem rumo certo; os ventos da moda, da política e da economia são contrários, eu te digo, coragem, Jesus já elevou a voz! 
 
"MUITA CALMA NESTA HORA!"
 
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Publicado por em julho 1, 2010 em Reflections

 

Uma oração para hoje…

Estou de volta, para partilhar mais um fato inédito que aconteceu comigo hoje de manhã. São, como sempre, cenas do dia a dia que chamam muita atenção pelo jeito que aconteceram e pela força da mensagem. O texto a seguir (que eu escrevo com muita pressa) vem relatar este novo episódio da minha caminhada cristã e sacerdotal nesta terra do Brasil.
 
Não esqueça de deixar o seu comentário…
 
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Festa no sertão…

 

Bom dia minha gente,

Após um período considerável de silêncio não planejado venho deixar uma palavra especial de bênção e de paz na ocasião da Natividade de São João Batista (24 de junho). No Brasil, de um jeito particular e original, São João encontra-se no coração das alegrias das festividades juninas. No Evangelho de Lucas, o nascimento daquele que foi considerado o maior entre os nascidos de mulher foi simplesmente ocasião de muitas comemorações; não só para a família, mas também para os vizinhos (cf. Lc 1, 58). Para Zacarias, a recuperação das suas faculdades de falar lhe devolveu a voz e a vez de ser de novo pai de família. Talvez seja por isso que os primeiros sons que saiam da sua boca foram simplesmente um grito de louvor ao Deus da vida. Não é por acaso que as festas juninas são grandes ocasiões de alegria e de festanças.

As festas juninas no Brasil são, na sua essência, multicurais, embora o formato atual das comemorações carregue uma forte influência nas festas dos santos populares em Portugal: Santo Antônio, São João (santos casamenteiros) e São Pedro principalmente. É interessante notar que as festas juninas são celebradas com uma intensidade especial na Região Nordeste (com a presença de muitos turistas, com fartura de comida, quadrilhas, casamento matuto ou caipira e muito forró), também nos estados de São Paulo, Paraná (norte), Minas Gerais e Goiás. Por sua vez, a festa de São João brasileira é típica da Região Nordeste. Por ser uma região árida, o Nordeste agradece anualmente a São João, mas também a São Pedro, pelas chuvas caídas nas lavouras[1]. Para mim, o ponto mais alto destas festas está no vestimento típico usado. Geralmente, os homens se vestem de camisa quadriculada, calça remendada com panos coloridos, e chapéu de palha, e as mulheres com vestido muito colorido e chapéu de palha sem esquecer o exagero na maquiagem. Não importa se for mulher ou homem, é preciso fazer bonito; é preciso parecer o mais caipira possível.

Hoje, eu acordei muito animado, ainda com as sequelas da tradicional pelada de quarta-feira, e fui rezar a missa das 7 horas no hospital Nossa Senhora das Graças no centro de GV. Era para ser uma missa simples (eu peço disculpa de falar assim da Santa Missa), sem muita pompa, mas uma voz vindo do funda da capelinha chamou a minha atenção.

Como de costume, eu sempre preparo uma pequena reflexão longa de dois minutos maximum para alimentar a nossa oração de ação de graças. Hoje eu decidi focar a minha intervenção na vocação de São João Batista. Ele nasceu para ser a voz clamando no deserto e convidando a sua geração para uma profunda conversão de vida. No meu pensamento, eu estava certo de demonstrar e de convencer a minha platéia que a missão confiada a João Batista é a mesma das pessoas da nossa época. É verdade que são duas realidades e duas épocas diferentes, mas eu me lembro, ainda com uma certa dose de segurança, ter dito que como São João devemos ser precursores, preparando os caminhos do Senhor mesmo se tudo estiver desfavorável. Proseguindo a minha lógica, eu comparei os dois contextos, humoristicamente, como duas realidades totalmente distantes uma da outra, mas semelhantes no sentido contrário: João Batista não usava nenhuma roupa convencional enquanto hoje a corrida pela última grife é quase uma obcessão; ele fugia de tudo que é zona urbana enquanto a nossa geração só pensa em morar em cidade grande; enquanto hoje as pessoas procuram se regrupar em condomínios fechados, João preferia passar o seu tempo todo no vasto mundo do deserto. Foi então, antes de terminar o raciocínio, ressoou:

– Posso dizer algo padre.

– por favor senhora, respondi.

Uma senhora sexagenária se levantou, deu uns passos para frente e olhou para mim e para a dúzia de fiéis (talvez um pouco mais) inconformada com esta intervenção inoportuna, pelo contexto. Ela sorriu e de novo voltou o seu olhar para mim e declarou firmemente:

– É padre, João Batista viveu e pregou no deserto, né. Eu também eu não me acho tão diferente dele não!

  Ah é? Respondi, como para convidar ela a desenvolver um pouco mais o seu pensamento.

– É mesmo heim seu padre. Lá em casa, eu estou vivendo num deserto. Ninguém me escuta! Estou quase sempre sozinha apesar de o meu marido e dois dos meus filhos ainda dormem lá, quando não saiem com os amigos. Estou sozinho a rezar. O meu marido se denânimou totalmente por tudo e nunca mais voltamos a conversar. Os meus filhos não me obedecem mais em nada e ainda adotam o silêncio como resposta e fazem o contrário do que eu disse. Estou me sentindo só. Para mim, eu sou uma Joana Batista. Talvez, a grande diferença é que com João Batista muita gente ia até ele no deserto enquanto eu estou gritando sem que ninguém ouviu a minha voz, mas eu vou continuar gritando e clamando por mudança lá em casa, porque eu acredito que é possível reveiver nos dias de hoje a cena do Evangelho que acabamos de proclamar (cf. Evangelho do dia: Lc 1, 57-66.80). Como foi possível para o velho Zacarias ter tantas ocasiões de alegria, eu acredito que é ainda possível para mim também. Por isso eu não desisto.

Depois desta última frase, uma lágrima vem descendo do alto do seu rosto e ela foi sentar-se. Eu também, decidi não acrescentar nada do que acabei de escutar. Alias não tinha mais nada a ser acrescentado nesta verdade que ela acabou de revelar. Cada um de nós, de uma maneira ou outra, tem experimentado a experiência desta mulher. Você concorda? Você já experimentou este tipo de sentimento? Quer desistir agora ou quer dar mais uma chance e tentar de novo?

Hoje, a pesar da qualidade e de tantas opções de comunicação estamos cada dia nos isolando. Parece que nós estamos numa ilha cercada de um mar de robos com aparência humana. As conferências “online” substituem os informais encontros amicais de verdade. Estamos deixando de viver. Melhor dizer estamos deixando de viver bem!

Que São João Batista interceda por nós a fim de reaprendermos a comunicar, quem sabe, para transformarmos os nossos desertos numa grande quadrilha.

 

Pe R. André Alcinéus, CSSp.


[1] Este ano a chuva não foi tão clemente com o Nordeste. Ainda esta manhã as notícias lembram mais de cem mortos, milhares de pessoas desabrigadas ou desalojadas, além de pontes e estradas levadas.

 
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Publicado por em junho 24, 2010 em Reflections

 

Em Nome do meu Povo…

Oi minha gente,
 
Venho vos agradecer pelas palavras de solidariedade e de apoio nestes dias difíceis que o meu país está atravessando. Eu vou usar parte da minha homilia de ontem para exprimir a minha gratidão. Segue o texto…
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Não deixe o vinho acabar…

Num contexto em que muitos estão se empenhando para lutar contra o alcoolismo devastador, matador e destruidor de tantas famílias aqui no Brasil e pelo mundo afora, como pode alguém ainda está clamando por mais vinho? Como pode se esquecer tão rapidamente as imagens de desolação que estão desfilando nas nossas telas desde a noite do dia 12 do primeiro mês do ano de 2010? Pior ainda, como um haitiano, neste momento, pode estar pedindo vinho? Será que precisa enterrar no sol do esquecimento a sua dor no embalo de cada gole?

Nada disso. Por informação, este alguém sou eu. Porque então falar de vinho? Não tem outra coisa mais apropriada não?

Eu precisava dizer algo. Dizer a minha dor de ver o meu povo sempre sofrido, desde tanto tempo, desde sempre, parece! Eu precisava dizer algo, com certeza. Sim, eu precisava gritar. Eu precisava falar para evacuar o silêncio da consternação diante das imagens de destruição total da cidade de Porto Príncipe e de outras cidades importantes do Haiti. Eu precisava de uma palavra para mim. Como que é? Sim senhores e senhoras. Na verdade, de duas palavras: Uma primeira para a minha consciência ouvir e uma segunda, diferente de todas as outras palavras já faladas, para falar para o meu povo. Eu precisava de umas palavras novas e, porque não, boas.

Obrigado a todos que me ajudaram nesta busca com suas mensagens de solidariedade e de apoio. Vocês foram muitos, quase anônimos, conhecidos, amigos e confrades que se tornarem parentes em tão pouco tempo. Vocês foram também muitíssimo importantes para eu escrever estas linhas. Sem as suas palavras “comuns” (comuns porque todo mundo disse a mesma coisa nestas circunstâncias, mas foram ditas com sinceridade e por pessoas especiais que são cada um e uma de vocês) não teria coragem de tentar falar também hoje. Que o Deus da vida continue iluminando os nossos passos; que Ele não se esqueça do meu povo e que Ele faça surgir sinais de esperança para nós. É a minha intenção de oração para hoje.

                Falando de sinal, é disso que o meu título quer tratar. Nada de bebedeira. A ocasião chama mais para o nosso espírito de sobriedade. O vinho ao qual estou me referindo é o inicio dos sinais de Jesus que o Evangelista João relatou no seu testemunho da liturgia de ontem (Cf. 2o domingo comum, ano C, Evangelho João, 2, 1-11). Como João eu faço questão de destacar a dimensão do sinal para evitar todas as interpretações equívocas e para reafirmar que o sinal, mesmo sendo uma realidade visível, não tem sentido sem a mensagem, sem o porque do seu simbolismo. Todos nós conhecemos alguns sinais.

                No caso do Evangelho, o vinho simboliza a alegria da festa das bodas. O fato de deixar acabar o vinha naquela circunstância era dizer aos convidados que podem voltar para o seu lar porque a festa vai acabar ou já acabou. O que não pode acontecer cedo numa festa ou que não deve acontecer de jeito nenhum quando a questão é festa. Festa é para durar. A palavra do mestre-sala explicou bem esta posição: “todo o mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom…” Por isso a mãe de Jesus atraiu logo atenção do seu filho sobre este fato bem conhecido. O vinho, como a alegria da festa, não pode faltar. Alguém precisa prestar atenção nisso. Não é um detalhe da festa.

                E no caso do meu Haiti hoje? O que tudo isso tem a ver? O que seria o vinho que não pode faltar?

Claro que estamos falando de uma situação diferente. Bem diferente. Não temos mais motivos de festa neste meu Haiti, mas qual elemento não pode faltar hoje? Qual atitude precisa ser renovada para que a vida prossiga e volte a ser festa para este meu povo? No Haiti de hoje, o que seria vinho? Qual seria um motivo de sorrir? É possível sorrir de verdade hoje neste meu Haiti?

Eu não tenho resposta, mas eu sei que é difícil adiar as lágrimas porque um último sobrevivente surgiu das massas de concretas enquanto todos não esperavam mais sinais de vida? E se esse for uma criançinha? Qual o peso de uma palavra de reconforto e de um gesto de solidariedade? Imagine o Haiti sem a comunidade internacional? Será que tudo isso não é vinho que não pode acabar? E o coração como fica depois de um telefonema direto com um parente lá no Haiti? (O que estou procurando experimentar desde a primeira noite do dia 12. Sem sucesso até agora). Imagine!

É esta palavra que eu queria encontrar. Eu queria ouvir que é possível ainda sonhar com dias melhores para o Haiti. Vixe! É possível mesmo?! Eu não sei como, mas sei que se nós não deixemos o vinho acabar isso é possível. Por isso venho agradecer a cada um e uma de vocês pelas palavras de apoio e de amizade que vocês partilharam comigo. Eu queria também dizer para o meu povo: Não deixe o vinho acabar. Não me deixe sozinho achar que é possível.

O Senhor é meu pastor….

Pe R. André Alcinéus, CSSp.

 
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Publicado por em janeiro 19, 2010 em Reflections

 

Uma palavra, curta, mas verdadeira!

Esta palavra não é minha não, mas eu a faço um lema pessoal. É uma pequena frase que eu encontrei na contra capa do jornal de opinião da Arquidiocese de BH no número 997 do 10 a 16 de julho de 2008. Decidi postar ela a fim de partilhar com vocês (meus amigos) e a todos que terão a oportunidade de passar por aqui. Um abraço. Como vocês vão descobrir é uma reflexão simples, até óbvia né. Eu fiquei com a segunda parte. E você?
 
"Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres, a outra é que tudo é milagre!"
 
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Publicado por em dezembro 17, 2009 em Reflections

 

Para que os jovens tenham vida – Editorial do #1 do jornal O JOVEM…

Aqui, venho apresentar o texto que eu escrevi como "editorial" do primeiro jornal informativo da juventude da paróquia Divino Espírito Santo.
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Para que os nossos jovens tenham vida… mais vida.

 

A primeira palavra que eu gostaria de deixar aqui é um desejo de bênção. Desejo de todo o meu coração que o Senhor da messe possa derramar as suas bênçãos de perseverança sobre a nossa paróquia em geral e sobre cada jovem em particular, nesta ocasião tão especial do nascimento deste nosso informativo, O Jovem. Que este dia, na paróquia, seja celebrado como uma vitória de todos (jovens e aqueles que acreditam no rosto jovem da Igreja). Para mim, hoje tem um gosto particular. Ele vem me lembrar da minha chegada aqui no início de fevereiro do ano passado e a prioridade claramente reassumida em favor dos jovens; entre outras urgências pastorais como a catequese e a formação de novas lideranças.

Puxa, parece que foi ontem! Como o tempo passa rápido!

Entre o DNJ 2008, seu convite para a juventude pautar as razões do seu viver e o dia de hoje em que estamos lançando o primeiro número do jornalzinho O Jovem, passaram-se exatamente cinco meses. Foram muitos passinhos dados até aqui, devagarzinho, mas na direção certa. Vamos lembrar que o nosso primeiro passo concreto foi a criação da Comissão Paroquial da Juventude (CPJ) em novembro de 2008. Esta Comissão é formada de “delegados-eleitos” dos grupos e movimentos de jovens das quatro comunidades da paróquia e constitui um verdadeiro espaço de diálogo, planejamento e formação para as juventudes da paróquia inteira.

De lá pra cá, foram cinco meses de encontros (muitos encontros mesmo…), de meditação, de reflexão e de amadurecimento do jeito certo a ser adotado a fim de que as verdadeiras e reais razões sejam bem pautadas. Também foram cinco meses de sacrifício, dedicação e lutas contra todas as formas de desânimo, verdadeiro pecado que impede o crescimento efetivo, afetivo, humano e espiritual de qualquer pessoa.

Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante", nos disse Saint Exupéry no seu Pequeno Príncipe. Assim, podemos resumir a concretização do lançamento do nosso jornalzinho O Jovem. A nossa flor acaba de nascer. É flor porque é importante para nós. É flor porque vem ao mundo à base de amor, dedicação, oração, esperança e força de vontade. É flor porque tem a vocação de um crescimento maior. No entanto, para que seja flor verdadeiramente, precisamos ter muito mais cuidado com ela a fim de que, derramando seu perfume, continue a sua dupla missão: ser um instrumento de comunicação entre os grupos e movimentos juvenis da paróquia e, sobretudo, um meio de unir as nossas juventudes, as quais deverão ser cada vez mais organizadas e fortes (Puebla). A partir de hoje, que cada dia seja uma nova oportunidade de renovar o compromisso de sermos mais um jardineiro no cuidado da rosa, O Jovem.

Deus seja louvado pela vida de cada um de vocês que acreditaram ser possível este dia, o primeiro de muitos outros dias de agradáveis surpresas. Hoje, o evento do lançamento do jornalzinho O Jovem vem nos lembrar que a caminhada será muito longa. Estamos apenas no começinho – devemos ter sempre isso em mente. Também precisaremos somar muitas forças enquanto caminhamos. Logo, não importa a sua idade, seja parceiro dos nossos jovens! Com certeza, Aquele que nos chama para esta missão estará sempre conosco (Cf. Mt 28, 20) e se formos fiéis, eu garanto que a nossa esperança será como um canto de eternaisdias melhores pra sempre.”


Deus abençoe a todos!

 Pe R. André Alcinéus, CSSp

 
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Publicado por em abril 3, 2009 em Reflections