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Arquivo mensal: janeiro 2012

12 de Janeiro, para não dizer que eu não falei das coisas…

Haiti 2012


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Definitivamente o mês de janeiro entrou para ficar na história do Haiti. Foi no primeiro dia do mês do ano de 1804 que o país, contra “tudo e todos”, tirou do papel a famosa declaração “francesa” dos direitos dos homens e do cidadão que serviria, sem dúvida, de base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pela Organização das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. São 208 anos de “independência” das correntes da colonização escravagista.

Enquanto os haitianos lembram o seu passado libertador não podemos esquecer que há dois anos o país sofreu um terrível terremoto que matou mais de 300.000 pessoas e, até hoje, deixou todas as marcas possíveis de uma tragédia. Eu me lembro bem, durante o meu retorno ao país no mês de agosto do ano passado: tive a impressão de que tudo havia acontecido “ontem”. Eu daria tudo para que toda esta história de terremoto fosse somente o roteiro de mais um filme de ficção. Mas aconteceu de verdade. As imagens estão ainda vivas e fortes. Na capital, Porto Príncipe, a visão não havia mudado muito em relação às primeiras imagens de desolação divulgadas na noite de 12 de Janeiro de 2010. Até o resto do Palácio Nacional estava lá para nos lembrar deste dia em que “a terra tremeu” e nos fez sentir pequenos. Nas ruas, as pessoas continuam indo e vindo no meio das velhas tendas. Além deste “espetáculo” nada agradável, o que mais me chamou atenção foi a grande e massiva presença de tantas ONG´s, principalmente estrangeiras, algumas com o mesmo nome (só que de países diferentes). Eu não pretendo analisar os fatos, mas prefiro ver um sinal concreto da “onda” de solidariedade que em todo o mundo se ouvia em favor do Haiti logo nas primeiras horas da catástrofe. Esta solidariedade, espontânea, naquela época, não tinha nem cor, nem religião. Ela era humana. Era o grito da humanidade ferida em cada haitiano. Esta solidariedade, aqui no Brasil, teve um sabor particular com a notícia de que a “mãe” da pastoral da criança se solidarizou até as últimas conseqüências com o povo do Haiti. Depois começaram a “chover” as muitas promessas de que a reconstrução era apenas questão de tempo. Não somente a reconstrução do espaço físico, mas espiritual. A própria CNBB se manifestou mandando vários representantes (até confrade da nossa congregação) e, várias vezes, para avaliar e iniciar uma nova linha da missão da Igreja do Brasil. A própria arquidiocese de São Paulo se envolveu diretamente nesta “onda” missionária. Graças a Deus!

POR AMOR A VIDA


Neste dia 12 de janeiro de 2012, dois anos depois dos segundos mais longos na historia do meu país o que percebo é um sentimento de que algo está errado. O que está errado? Quem está errado? O que senti neste momento de um modo geral foi a sensação de certa impotência diante de tantas perguntas sem respostas. Eu não sei bem, mas parece que as interrogações tenham mais espaço do que as afirmações no contexto de hoje. Aliás, digo de passagem, eu não me preocupo muito em “forjar” ou receber qualquer resposta para aliviar esta incerteza. Porém, tenho consciência de que para alguém de fora, mesmo sendo um membro do povo, a visão nunca pode ser considerada absoluta até porque é resultante de uma leitura segunda e indireta. É esta leitura que eu vou tentar partilhar nas seguintes linhas.

VER-JULGAR-AGIR...CELEBRAR

A sensação que eu tenho hoje é que acabou definitivamente o tempo em que ser haitiano era orgulho para a America Latina que lutava contra a escravidão “colonial”. Não só que os povos se espelhavam no exemplo da parte oeste da grande Ilha “Hispanhola”, mas alguns receberam apoio direto do Haiti para o seu próprio processo de formação como nação. A história do povo venezuelano, por exemplo, registra vários momentos desta inspiração e cooperação na luta pela liberdade. Os tempos mudaram, o mundo mudou (e como mudou! E muito mesmo!), as conjunturas não são as mesmas em nenhum lugar do planeta. Assim, de um tempo pra cá (nem sei mais dizer desde quando) ser haitiano vem a representar um peso para o resto do mundo. O Haiti é lembrado como um país que fracassou em tudo e, tem gente que até sustentou a tese, de uma nação precoce que não estava pronta para assumir a liberdade conquistada, como se fosse possível falar da liberdade como algo negociável! Será que tem um tempo para ser livre? Será que o ser humano não nasce livre mesmo? Às vezes, ouvindo falar do Haiti, eu tenho a impressão de que o meu país vem sendo um lugar de experimentação econômica, política e até militar. Não é por acaso que o Brasil recebeu e está comandando a sua primeira grande missão militar da ONU exatamente no Haiti. Alguns amigos aqui no Brasil até brincam com o fato e, certo dia, um deles fez este comentário: “O Brasil nem consegue se comandar e hoje vai comandar outro país; este país deve ser ruim mesmo, né?” Será que o Haiti é aqui mesmo?

Não é, não! Ainda mais hoje, mesmo tendo problemas, favelas e corruptos parecidos com os daqui, não é mais, não. Tem jornalista (repórter espetacular) que ganhou até medalha porque mostrou, não sem exagero, que a coisa mudou faz tempo! Acabou o tempo quando o café haitiano era um dos mais cobiçados ao lado da safra brasileira. O que produzimos hoje quase não dá mais nem para a apreciação local. Falando do Brasil, onde eu vivo desde quase 6 anos por opção missionária e pelo desejo de conhecer a terra do Dom Helder Câmara, eu posso dizer que foi aqui que eu me senti mais haitiano na visão atual do mundo. Desde que cheguei aqui em fevereiro de 2006 eu me deparo a cada ocasião com as mesmas e inevitáveis perguntas. Uma, em particular, sempre me deixou quase sem reação: Quando você vai trazer os seus pais para morar aqui? – Eu não vou trazer eles para morar não porque um dia eu pretendo voltar para servir a minha Igreja, tento responder – não que eu não tenha gostado ou não tenha sido bem recebido. No entanto, sempre tive a certeza de que o Haiti está e estará nas minhas prioridades. Com certeza a minha experiência aqui servirá para fazer de mim um missionário melhor no futuro e para o meu retorno definitivo. Neste sentido eu sou muito grato ao povo brasileiro, como aos demais países onde eu já vivi, estudei e passei na minha caminhada missionária e humana.

Desde que o Brasil passou a comandar a operação militar no Haiti e por ter saído da parte mais aguda da crise econômica mundial quase sem grande susto, ao contrário do que aconteceu com as maiores economias do mundo, a imagem que se vende lá fora é que temos um “novo rico”. Tese que foi se confortando com a ostentação de todo o aparato militar brasileiro nas ruas do Haiti. Para qualquer um desesperado em busca de uma saída qualquer o novo “Tio Sam” mudou de endereço, e ficou também um pouco mais longe (se for comparar com Miami). E como era de esperar a população haitiana no Brasil aumentou consideravelmente e, muitas vezes, do jeito errado. Não é mais novidade para ninguém no Brasil que há mais de 1200 “refugiados” haitianos na cidade acreana de Brasiléia, que na semana passada receberam, do governo federal, a boa notícia de que serão ajudados no processo de regularização e de integração. Mais uma promessa!
Agora uma coisa chamou a minha atenção nesta história toda. Voltando atrás e comparando a minha própria situação de estrangeiro (claro, a minha situação é bem diferente e privilegiada), recordo como foi difícil chegar ao Brasil e receber o visto permanente. Então me pergunto: O que vai acontecer verdadeiramente com os meus irmãos haitianos que estão vivendo em Brasiléia? Agora que eles estão saindo em grupos de 40, onde eles vão? O que eles vão fazer? Como eles vão viver? Até aqui tudo bem, mas outra pergunta me perturba: como conseguiram chegar até o Acre? Quem já morou nesta parte do país sabe como é difícil chegar até lá. Quem facilitou?

HAITI CHÉRIE


Fazendo memória deste segundo “aniversário” do terrível terremoto que mudou para sempre o destino de um povo já sofrido, mas mesmo assim, eu continuo dizendo que é, carinhosamente, o meu “HAITI CHÉRIE”, tenho a sensação de que, com a chegada destes irmãos haitianos no Brasil (e principalmente como eles chegaram) os efeitos do terremoto são ainda em 2012 mais do que dramáticos. Eu temo o pior. Espero que eles não sejam mais um contingente de pessoas que vai aumentar a lista dos desempregados, dos ignorados e dos abandonados pelo sistema. É por isso que as minhas últimas perguntas me preocupam. Elas são muitas e tão urgentes para ficar muito tempo sem respostas. Precisamos apurar os fatos. Precisamos fazer algo. Precisamos saber a verdade dos fatos para ter uma certa tranqüilidade e continuar viver (e até sobreviver)…

R. André Alcinéus, CSSp

 
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Publicado por em janeiro 12, 2012 em Reflections