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Arquivo mensal: junho 2010

Uma oração para hoje…

Estou de volta, para partilhar mais um fato inédito que aconteceu comigo hoje de manhã. São, como sempre, cenas do dia a dia que chamam muita atenção pelo jeito que aconteceram e pela força da mensagem. O texto a seguir (que eu escrevo com muita pressa) vem relatar este novo episódio da minha caminhada cristã e sacerdotal nesta terra do Brasil.
 
Não esqueça de deixar o seu comentário…
 
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Festa no sertão…

 

Bom dia minha gente,

Após um período considerável de silêncio não planejado venho deixar uma palavra especial de bênção e de paz na ocasião da Natividade de São João Batista (24 de junho). No Brasil, de um jeito particular e original, São João encontra-se no coração das alegrias das festividades juninas. No Evangelho de Lucas, o nascimento daquele que foi considerado o maior entre os nascidos de mulher foi simplesmente ocasião de muitas comemorações; não só para a família, mas também para os vizinhos (cf. Lc 1, 58). Para Zacarias, a recuperação das suas faculdades de falar lhe devolveu a voz e a vez de ser de novo pai de família. Talvez seja por isso que os primeiros sons que saiam da sua boca foram simplesmente um grito de louvor ao Deus da vida. Não é por acaso que as festas juninas são grandes ocasiões de alegria e de festanças.

As festas juninas no Brasil são, na sua essência, multicurais, embora o formato atual das comemorações carregue uma forte influência nas festas dos santos populares em Portugal: Santo Antônio, São João (santos casamenteiros) e São Pedro principalmente. É interessante notar que as festas juninas são celebradas com uma intensidade especial na Região Nordeste (com a presença de muitos turistas, com fartura de comida, quadrilhas, casamento matuto ou caipira e muito forró), também nos estados de São Paulo, Paraná (norte), Minas Gerais e Goiás. Por sua vez, a festa de São João brasileira é típica da Região Nordeste. Por ser uma região árida, o Nordeste agradece anualmente a São João, mas também a São Pedro, pelas chuvas caídas nas lavouras[1]. Para mim, o ponto mais alto destas festas está no vestimento típico usado. Geralmente, os homens se vestem de camisa quadriculada, calça remendada com panos coloridos, e chapéu de palha, e as mulheres com vestido muito colorido e chapéu de palha sem esquecer o exagero na maquiagem. Não importa se for mulher ou homem, é preciso fazer bonito; é preciso parecer o mais caipira possível.

Hoje, eu acordei muito animado, ainda com as sequelas da tradicional pelada de quarta-feira, e fui rezar a missa das 7 horas no hospital Nossa Senhora das Graças no centro de GV. Era para ser uma missa simples (eu peço disculpa de falar assim da Santa Missa), sem muita pompa, mas uma voz vindo do funda da capelinha chamou a minha atenção.

Como de costume, eu sempre preparo uma pequena reflexão longa de dois minutos maximum para alimentar a nossa oração de ação de graças. Hoje eu decidi focar a minha intervenção na vocação de São João Batista. Ele nasceu para ser a voz clamando no deserto e convidando a sua geração para uma profunda conversão de vida. No meu pensamento, eu estava certo de demonstrar e de convencer a minha platéia que a missão confiada a João Batista é a mesma das pessoas da nossa época. É verdade que são duas realidades e duas épocas diferentes, mas eu me lembro, ainda com uma certa dose de segurança, ter dito que como São João devemos ser precursores, preparando os caminhos do Senhor mesmo se tudo estiver desfavorável. Proseguindo a minha lógica, eu comparei os dois contextos, humoristicamente, como duas realidades totalmente distantes uma da outra, mas semelhantes no sentido contrário: João Batista não usava nenhuma roupa convencional enquanto hoje a corrida pela última grife é quase uma obcessão; ele fugia de tudo que é zona urbana enquanto a nossa geração só pensa em morar em cidade grande; enquanto hoje as pessoas procuram se regrupar em condomínios fechados, João preferia passar o seu tempo todo no vasto mundo do deserto. Foi então, antes de terminar o raciocínio, ressoou:

– Posso dizer algo padre.

– por favor senhora, respondi.

Uma senhora sexagenária se levantou, deu uns passos para frente e olhou para mim e para a dúzia de fiéis (talvez um pouco mais) inconformada com esta intervenção inoportuna, pelo contexto. Ela sorriu e de novo voltou o seu olhar para mim e declarou firmemente:

– É padre, João Batista viveu e pregou no deserto, né. Eu também eu não me acho tão diferente dele não!

  Ah é? Respondi, como para convidar ela a desenvolver um pouco mais o seu pensamento.

– É mesmo heim seu padre. Lá em casa, eu estou vivendo num deserto. Ninguém me escuta! Estou quase sempre sozinha apesar de o meu marido e dois dos meus filhos ainda dormem lá, quando não saiem com os amigos. Estou sozinho a rezar. O meu marido se denânimou totalmente por tudo e nunca mais voltamos a conversar. Os meus filhos não me obedecem mais em nada e ainda adotam o silêncio como resposta e fazem o contrário do que eu disse. Estou me sentindo só. Para mim, eu sou uma Joana Batista. Talvez, a grande diferença é que com João Batista muita gente ia até ele no deserto enquanto eu estou gritando sem que ninguém ouviu a minha voz, mas eu vou continuar gritando e clamando por mudança lá em casa, porque eu acredito que é possível reveiver nos dias de hoje a cena do Evangelho que acabamos de proclamar (cf. Evangelho do dia: Lc 1, 57-66.80). Como foi possível para o velho Zacarias ter tantas ocasiões de alegria, eu acredito que é ainda possível para mim também. Por isso eu não desisto.

Depois desta última frase, uma lágrima vem descendo do alto do seu rosto e ela foi sentar-se. Eu também, decidi não acrescentar nada do que acabei de escutar. Alias não tinha mais nada a ser acrescentado nesta verdade que ela acabou de revelar. Cada um de nós, de uma maneira ou outra, tem experimentado a experiência desta mulher. Você concorda? Você já experimentou este tipo de sentimento? Quer desistir agora ou quer dar mais uma chance e tentar de novo?

Hoje, a pesar da qualidade e de tantas opções de comunicação estamos cada dia nos isolando. Parece que nós estamos numa ilha cercada de um mar de robos com aparência humana. As conferências “online” substituem os informais encontros amicais de verdade. Estamos deixando de viver. Melhor dizer estamos deixando de viver bem!

Que São João Batista interceda por nós a fim de reaprendermos a comunicar, quem sabe, para transformarmos os nossos desertos numa grande quadrilha.

 

Pe R. André Alcinéus, CSSp.


[1] Este ano a chuva não foi tão clemente com o Nordeste. Ainda esta manhã as notícias lembram mais de cem mortos, milhares de pessoas desabrigadas ou desalojadas, além de pontes e estradas levadas.

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Publicado por em junho 24, 2010 em Reflections