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Arquivo mensal: janeiro 2010

Em Nome do meu Povo…

Oi minha gente,
 
Venho vos agradecer pelas palavras de solidariedade e de apoio nestes dias difíceis que o meu país está atravessando. Eu vou usar parte da minha homilia de ontem para exprimir a minha gratidão. Segue o texto…
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Não deixe o vinho acabar…

Num contexto em que muitos estão se empenhando para lutar contra o alcoolismo devastador, matador e destruidor de tantas famílias aqui no Brasil e pelo mundo afora, como pode alguém ainda está clamando por mais vinho? Como pode se esquecer tão rapidamente as imagens de desolação que estão desfilando nas nossas telas desde a noite do dia 12 do primeiro mês do ano de 2010? Pior ainda, como um haitiano, neste momento, pode estar pedindo vinho? Será que precisa enterrar no sol do esquecimento a sua dor no embalo de cada gole?

Nada disso. Por informação, este alguém sou eu. Porque então falar de vinho? Não tem outra coisa mais apropriada não?

Eu precisava dizer algo. Dizer a minha dor de ver o meu povo sempre sofrido, desde tanto tempo, desde sempre, parece! Eu precisava dizer algo, com certeza. Sim, eu precisava gritar. Eu precisava falar para evacuar o silêncio da consternação diante das imagens de destruição total da cidade de Porto Príncipe e de outras cidades importantes do Haiti. Eu precisava de uma palavra para mim. Como que é? Sim senhores e senhoras. Na verdade, de duas palavras: Uma primeira para a minha consciência ouvir e uma segunda, diferente de todas as outras palavras já faladas, para falar para o meu povo. Eu precisava de umas palavras novas e, porque não, boas.

Obrigado a todos que me ajudaram nesta busca com suas mensagens de solidariedade e de apoio. Vocês foram muitos, quase anônimos, conhecidos, amigos e confrades que se tornarem parentes em tão pouco tempo. Vocês foram também muitíssimo importantes para eu escrever estas linhas. Sem as suas palavras “comuns” (comuns porque todo mundo disse a mesma coisa nestas circunstâncias, mas foram ditas com sinceridade e por pessoas especiais que são cada um e uma de vocês) não teria coragem de tentar falar também hoje. Que o Deus da vida continue iluminando os nossos passos; que Ele não se esqueça do meu povo e que Ele faça surgir sinais de esperança para nós. É a minha intenção de oração para hoje.

                Falando de sinal, é disso que o meu título quer tratar. Nada de bebedeira. A ocasião chama mais para o nosso espírito de sobriedade. O vinho ao qual estou me referindo é o inicio dos sinais de Jesus que o Evangelista João relatou no seu testemunho da liturgia de ontem (Cf. 2o domingo comum, ano C, Evangelho João, 2, 1-11). Como João eu faço questão de destacar a dimensão do sinal para evitar todas as interpretações equívocas e para reafirmar que o sinal, mesmo sendo uma realidade visível, não tem sentido sem a mensagem, sem o porque do seu simbolismo. Todos nós conhecemos alguns sinais.

                No caso do Evangelho, o vinho simboliza a alegria da festa das bodas. O fato de deixar acabar o vinha naquela circunstância era dizer aos convidados que podem voltar para o seu lar porque a festa vai acabar ou já acabou. O que não pode acontecer cedo numa festa ou que não deve acontecer de jeito nenhum quando a questão é festa. Festa é para durar. A palavra do mestre-sala explicou bem esta posição: “todo o mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom…” Por isso a mãe de Jesus atraiu logo atenção do seu filho sobre este fato bem conhecido. O vinho, como a alegria da festa, não pode faltar. Alguém precisa prestar atenção nisso. Não é um detalhe da festa.

                E no caso do meu Haiti hoje? O que tudo isso tem a ver? O que seria o vinho que não pode faltar?

Claro que estamos falando de uma situação diferente. Bem diferente. Não temos mais motivos de festa neste meu Haiti, mas qual elemento não pode faltar hoje? Qual atitude precisa ser renovada para que a vida prossiga e volte a ser festa para este meu povo? No Haiti de hoje, o que seria vinho? Qual seria um motivo de sorrir? É possível sorrir de verdade hoje neste meu Haiti?

Eu não tenho resposta, mas eu sei que é difícil adiar as lágrimas porque um último sobrevivente surgiu das massas de concretas enquanto todos não esperavam mais sinais de vida? E se esse for uma criançinha? Qual o peso de uma palavra de reconforto e de um gesto de solidariedade? Imagine o Haiti sem a comunidade internacional? Será que tudo isso não é vinho que não pode acabar? E o coração como fica depois de um telefonema direto com um parente lá no Haiti? (O que estou procurando experimentar desde a primeira noite do dia 12. Sem sucesso até agora). Imagine!

É esta palavra que eu queria encontrar. Eu queria ouvir que é possível ainda sonhar com dias melhores para o Haiti. Vixe! É possível mesmo?! Eu não sei como, mas sei que se nós não deixemos o vinho acabar isso é possível. Por isso venho agradecer a cada um e uma de vocês pelas palavras de apoio e de amizade que vocês partilharam comigo. Eu queria também dizer para o meu povo: Não deixe o vinho acabar. Não me deixe sozinho achar que é possível.

O Senhor é meu pastor….

Pe R. André Alcinéus, CSSp.

 
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Publicado por em janeiro 19, 2010 em Reflections